quinta-feira, 22 de setembro de 2011

O carteiro, o poeta e eu

Entre uma e outra obra sobre mudança linguística, significados, paradigmas e tudo o mais que é acadêmico, dia desses caiu sobre mim uma das obras mais singelas e profundas que já tive oportunidade de ver. Lirismo!

Ouvi falar do filme a primeira vez lendo um livro (Princípios básicos de Lexicologia, Ed. UFPE) da minha orientadora, Nelly Carvalho, cujo trecho reporto abaixo:

"O belíssimo e premiado filme O Carteiro e o Poeta (baseado no livro O Carteiro de Pablo Neruda, de Antônio Skámeta) temos o seguinte diálogo entre Neruda – o poeta – e Mário – o carteiro:
“- O que tens?
- Don Pablo?
- Ficas aí parado como um poste.
Mário torceu o pescoço e firmou os olhos do poeta de baixo a cima.
- Cravado como uma lança?
- Não, quieto como uma torre de xadrez.
- Mais tranquilo que gato de porcelana.
Neruda largou a maçaneta do portão e acariciou o queixo.
- Mário Jinenes, além das Odes Elementares, tenho livros muito melhores. É indigno que me submetas a todo tipo de comparação e metáforas.
- D. Pablo?
- Metáforas, homem!
- Que coisas são essas?
- Para te esclarecer mais ou menos imprecisamente, são maneiras de dizer uma coisa comparando-as a outra.
- Dê-me um exemplo.
- Neruda olhou para o relógio e suspirou.
- Bem, quando tu dizes que o céu está a chorar, o que é que queres dizer?
- Que fácil! Que está a chover, pois.
- Bem, isso é metáfora.
- E por que sendo tão fácil se chama uma coisa tão complicada?
- Porque os nomes não têm nada a ver com a simplicidade ou complicação das coisas. Segundo a tua teoria, uma coisa pequena que voa não devia ter o nome tão complicado como mariposa. Pensa que elefante tem o mesmo número de letras, é muito maior e não voa – conclui Neruda, exausto”.