quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

O seu lugar

Seu Lugar
3 na Massa

Nas minhas curvas e esquinas
Vivem desejos que fogem das mãos
Fazendo o coração corar de vez em vez
O lugar onde você deve chegar
O endereço onde você vai ficar
A minha avenida você vai andar
E agora eu já sou o seu lugar
Dentro de mim
Você vai morar
O perfume agora é quem vai mandar
O caminho é certo e não tem como errar
Vou enladeirar as vias
Desse seu lugar
Você não vai se perder
Eu vou lhe achar.


Segundo o Grande Pensador do Mundo (não estou falando de Deus nem do grande computador de O Guia dos Mochileiros das Galáxias), o planeta terra "é o terceiro planeta mais próximo do Sol, o mais denso e o quinto maior dos oito planetas do Sistema Solar. É também o maior dos quatro planetas telúricos. É por vezes designada como Mundo ou Planeta Azul. Lar de milhões de espécies de seres vivos, incluindo os humanos, a Terra é o único corpo celeste onde é conhecida a existência de vida" (Wikipedia).

Esta definição me dá sensação de grandiosidade. Fico imaginando que o nosso planeta deve ser muito importante para o universo. Estou errada. O planeta é importante para nós, humanos, que vivemos nele. Sem nós, o planeta terra é mais um corpo celeste entre tantos outros, que pode sumir da galáxia com uma corriqueira explosão, como essas que acontecem a todo minuto com as estrelas.

A nossa capacidade de compreender o tamanho e a importância das coisas está extremamente atrelada à nossa percepção individual. As coisas se definem a partir do que nós somos e sentimos sobre elas. Assim, nossa relação com as outras pessoas também carrega o fardo do egoísmo: gostamos dos outros pelo que eles podem nos causar de prazer, bem estar e felicidade (com exceção dos sádicos). Quando não nos servem mais, são um estorvo.

Aprendemos na escola que o planeta Terra realiza dois movimentos, o de rotação e o de translação. O movimento de rotação é aquele em que o globo dá voltas a partir de seu próprio eixo, não importando os outros astros a sua volta. Esse movimento nos proporciona a existência dos dias e das noites. A translação é o movimento da terra em torno do sol, astro que proporciona a existência e a manutenção da vida no nosso planeta.
Os dois movimentos têm naturezas distintas. Na rotação, a terra se mexe, mas não sai do lugar. 


Gosto de pensar nossos movimentos no espaço e dentro de nós mesmos como os movimentos da terra, porque é preciso que encontremos um equilíbrio entre os movimentos sobre nosso próprio eixo e os que nos levam a outros lugares, nos fazendo exercitar mudanças em nossa natureza. Há pessoas que realizam apenas trânsitos de rotação: giram 360 graus em torno de si mesmas e sempre voltam ao mesmo lugar. Na aventura ao redor do sol, ocorrem as mudanças de estações. Algumas são mais agradáveis do que outras, mas a existência de cada uma delas faz a outra ter sua especificidade e valor.

A terra continua fazendo esses movimentos desde que existe, e continuará a ser assim daqui a milhões de anos. O relógio, as estações, os dias e as noites continuarão existindo. Os prédios, avenidas, os passeios públicos continuarão lá. A memória dos lugares se constrói por pessoas e por sua relação com os lugares (minha amiga arquiteta Mirela Duarte me ensinou que isso se chama "Espírito do Lugar"). Nenhum lugar significa qualquer coisa sem as pessoas que o habitam. Um prédio bonito é apenas uma carcaça arquitetônica e só pode ser chamado de lugar quando pessoas dão vida a ele. 



René Magritte - Le Château des Pyrénées, 1959

Na dança preciosa que alterna passos de rotação e de translação, precisamos encontrar o nosso eixo, a(s) nossa(s) pessoa(s)-lugar(es), que podem nos dar o calor, quando nos aproximamos, e frio, quando nos afastamos. A terra tem um eixo. Nós também. Não adianta querer fugir, andando aqui e acolá, tentando nos acomodar dentro do nosso próprio corpo. Ouvi dizer certa vez que toda mudança é dolorida porque nos tira do nosso lugar. Mas, para alguns, a mudança pode ser uma fuga, por muitas vezes ser insuportável o seu próprio lugar em si mesmo. 

Um dia se perde as forças das pernas. Um dia é necessário encontrar um canto em que se encontre a paz. Não em algum lugar, mas em si mesmo. E nessa empreitada, é necessário ter companhia - e boas companhias - que se consegue com tempo, dedicação, paciência e presença. Para ter presença, é preciso que se largue um pouco do seu próprio eixo e que se caminhe em torno do outro. O outro é o melhor lugar que se pode encontrar na vida. O exercício da liberdade também se faz quando se escolhe ficar.